A maior humilhação na Alemanha

Que vergonha!

Colega, nem te conto que já faz 1 ano e 5 meses desde que eu pisei no território europeu e nesse meio tempo eu já vivi tanta coisa…

Desemprego, desafios com a língua, quase fiquei sem-teto, orçamento super apertado, dor de dente sem plano de saúde, saudade das filhas, inseguranças, mudanças de planos… 

Fui injustiçada e enganada (mais de uma vez) e nada foi tão humilhante como o que aconteceu no dia 02.01.2019.

Na virada do ano eu não fiz nenhuma promessa mas pedi um monte de coisas, como sempre, que nem dou conta de realizar, é lógico. Fiz uma lista agradecendo por tudo o que 2019 me trouxe e uma lista de desejos para 2020. Pense numa lista digna de Papai Noel!

No primeiro dia do ano eu me senti forte, lembrei de todos os vídeos, livros e palestras motivacionais e decidi que era hora de agir. Me vesti para a guerra, toda de preto com um casaco quebra vento e calças de malha, coloquei minha melhor playlist e ainda arrisquei enviar um vídeo para os meus anjos da guarda com a seguinte mensagem:

– “cansei de esperar, estou indo andar em volta do lago, quem vai comigo?”

Nos primeiros 5 passos fora de casa eu já estava com os dedos congelados e ao invés de marcar apenas as 5 pessoas, descobri somente no dia seguinte que eu publiquei nos stories do whatsapp.

Como fiz isso? Não sei até hoje! Só sei que dedinhos congelados fazem o que querem.

Acontece que estava fazendo 2ºC.

Depois de andar 10 km senti algo estranho, um formigamento nas pernas e um quentinho nos pés. O engraçado era que eu tentava mexer os dedinhos e não sentia nada.

A névoa já estava bem baixa e quando cheguei no apartamento fui direto pro chuveiro.  Me assustei com a visão da cintura pra baixo, pernas vermelhas como sangue, quadris roxos. A água quente não alterou em nada o meu cenário e eu tive que ficar linda assim sem saber do futuro.

No dia seguinte eu me sentia a propria Lara Croft e decidi finalmente participar de uma aula de Muay Thai.

Isso se repetia na minha lista de desejos todos os anos há pelo menos 10 anos. Cheguei na academia com 20 minutos de antecedência porque era óbvio que me seriam apresentados os planos de pagamento e as instalações, certo? Errado. Me mandaram ir pro andar da aula e ponto.

Fiquei lá em pé vendo um monte de gente fazendo piruetas no ar e a todo momento vinha um me dar a mão ao que eu me apresentava achando que era o mestre. Oh inocente…

Na hora da aula começar chegou um armário 2×2 de casaco – enquanto todos os outros malabaristas estavam de shortinho curto e solto – passou bem devagar por mim fazendo sinal de paz para todos, tirou o casaco e então se apresentou como o responsável.

-Ufa! Serei encaminhada agora!

Que nada…

O povo continuou lá na dança, no ringue, colocando umas faixas na mão e eu bem “integrada” atrás de uma coluna dando graças a Deus por estar toda de preto para não ser percebida.

Chegou uma mulher de muletas, sem conseguir encostar os pés no chão, cumprimentou todos e ao ir embora me disse:

-“você vai adorar, eu ainda tenho que esperar até março para voltar”. 

Agora pronto! Com certeza essa moça se feriu aqui!

Foi então que um rapaz encostou no meu ombro e me disse que eu precisava ir para o centro do tatame.

O mestre/montanha estava sério e os alunos logo formaram 2 filas, eu me uni a eles.  Todos comecaram a sentar, agachar, levantar os brancos, abaixar os braços… E eu toda descoordenada tentando imitar. Quando o ritual terminou ele falou algo que eu nao entendi e todos saíram correndo pras suas bolsas.

Pra mim ele disse:

-“pegue a sua ali” e apontou para uma sala.

Lá estava ela, tão inocente, tão infantil, fácil e ordinária.   

Montanha ligou o som e todos começaram a pular corda.

-Facinho, pensei. Foi assim mesmo pelos primeiros 30 segundos até eu começar a tropeçar, prender a ordinária no meu rabo de cavalo e perder o meu fôlego por completo. 

Uma coisa apitava de minuto em minuto e eu parava de pular achando que era o sinal para tal mas não, era o sinal pra pular de outro jeito. E eu continuava me embolando com a corda.

Que presepada! 

As músicas que ele escolheu foram latinas e eu só lembrava da Nayla, amiga Mexicana do trabalho, que já me arrastou para o zumba para experimentar e no tal dia não teve aula. Pensei ser o destino, eu sou meio atrapalhada mesmo apesar de já ter me arriscado bastante no sertanejo e no forró quando alguém se dispunha a levar pisões nos pés.

A tortura finalmente acabou e eu estava pronta para socar alguma coisa imaginando descontar todo o estresse do trabalho mas o professor me decepcionou ao me posicionar de frente pro espelho para treinar os movimentos.

Enquanto isso os 14 malabaristas treinavam seus movimentos avançados livremente pelo tatame. Que frustrante…

Eu me olhava no espelho e fazia os movimentos separadamente. Depois chegou a hora de fazer tudo junto e eu não consegui, me vinham os números da sequência em alemão e depois em português na cabeça, um dois, dre, zwei… . Me atrapalhei toda com os pensamentos.

De repente a música abaixou e Montanha foi indicando os exercícios de alongamento, começando por remada para frente (basicamente bater as asas).

Nessa hora eu percebi uma coisa branca balançando nas mangas da minha blusa.

– Eu tenho o tchau (flacidez nos braços) e ele balança como gelatina! – Misericórdia..

Em seguida ele pediu para todos fazerem o movimento do bambolê com os quadris, bem devagar, enquanto tocava uma música latina em que o refrão era um grito sofrido, estridente e longínquo que se traduzia em “aiaiaiaiaiaiiiiiiii…”.

Eu quis dar uma gargalhada alta pensando ser essa a minha música mas todos estavam bastante sérios e concentrados.

Chegou a hora do corpo a corpo e eu fui colocada junto de outro iniciante. Nós só tínhamos que treinar socos e chutes usando um protetor enquanto isso os outros pares treinavam a luta real.

Em um determinado momento eu comecei a sentir um cheiro estranho, meio azedo, meio de cebola, meio de queijo estragado… Era sovaqueira mesmo! Comecei a chutar cada vez mais torto, inclinando a cabeça pra baixo com a intenção de farejar o meu próprio sovaco. 

Percebi ser a única mulher entre 14 homens e nem se eu tentasse com muito esforço e dedicação eu não chegaria a tamanha potência.

Devo confessar que a parte dos chutes foi a minha favorita, ali eu realmente descontei toda a minha frustração e raiva. 

Fiquei divagando introspectivamente enquanto o meu suor emanava a minha orgulhosa contribuição para a sinfonia presente no ar, e foi então que eu percebi que a minha raiva era em relação a mim mesma.

Por que eu tinha demorado tantos anos para realizar um desejo tão simples que era fazer uma aula dessas?

A música foi silenciada e eu senti um ardor no pé. Olhei pra baixo e constatei uma ferida aberta.

-Deve ser para evitar isso que servem os protetores, pensei.

O professor anunciava o último round e eu deveria treinar os chutes no saco de areia agora. Era duro e a ferida se abriu ainda mais. Dei uma olhada para os colegas, todos com protetor de cabeça e de dentes. A coisa estava feia e eu lembrei da mulher de muletas.

Quando o round acabou, todos se enfileiraram novamente e eu no meio, mantendo bastante distância dos coleguinhas para não ofender a minhas narinas, mas eles me empurraram e ficamos todos a um palmo de distância. Pensei na sequência zen do início mas a tortura ainda iria começar.

Tivemos que fazer flexão, ponte, e ao final ponte com puxada de pernas.

Eu juro que tentei, tentei tanto que a minha blusa foi parar no pescoço, revelando meu bucho branco (como bem disse o meu irmão alemão), mas as minhas pontes desabaram como parte do eixão de Brasília. Ao final todos se cumprimentaram e correram pro vestiário.

Eu catei o meu casaco jogado no chão com cara de derrotada e fui pra porta da sala calçar os sapatos aliviada sem perceber a porta do vestiário logo ao lado da saída.

Sem vergonha, como são os alemães, eles estavam com a porta aberta, tomando banho todos juntos, o que me deixou com vergonha apesar de não ser eu a estar nua. Me mantive de costas rezando para calçar os tênis rapidamente quando alguém teve a ideia brilhante de fechá-la.

Fui pra casa mancando, no escuro e no frio.

Acordei sem conseguir me mexer direito.

Foi doloroso,

Foi humilhante.

Volto na terça feira com os protetores.

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