Quase sem teto em Viena :/

Malas prontas, documentos traduzidos e apostilados, tudo vendido, apartamento alugado e filhas com os pais…

Recém casados, coração dilacerado mas com a certeza de logo ter tudo arrumado para as crianças nos encontrarem, partimos rumo a Viena, Áustria.

Não tínhamos conseguido juntar todo o dinheiro que queríamos mas se ficássemos no Brasil certamente teríamos sempre mais e mais gastos e a poupança nunca ficaria robusta.

Pagamos 2 semanas de hospedagem e tínhamos a certeza de que esse período seria o suficiente para conseguirmos um apartamento, afinal, sou cidadã austríaca por parte de mãe e o governo tem um dos melhores planos de assistência social do mundo.

Recebi orientação de uma pessoa querida de que eu teria direito a seguro desemprego, plano de saúde e moradia do Estado, tudo o que eu tinha que fazer essa comparecer no órgão responsável. Confesso que foi essa fala que mais me deu coragem de vir, o que poderia dar errado com tantas garantias?

A vida nos prega cada peça…

A ideia era ir na agência do trabalhador daqui, AMS. Eles são responsáveis pela recolocação no mercado de trabalho, seguro desemprego e vários cursos profissionalizantes, inclusive o curso de alemão.

Mal sabia eu da burocracia do mundo velho…

O que me foi explicado é que eu não poderia me cadastrar como desempregada e nem receber qualquer tipo de informação ou auxílio enquanto eu não tivesse uma residência fixa.

Mas como ter residência fixa se eu não tinha emprego?

Depois de me aconselhar por telefone com aquela pessoa querida e experiente fui bater num órgão de Viena que é responsável por dar auxílio moradia para os residentes.

Imagine, Douglas e eu numa fila gigante, eu parecia suar de calor mas na verdade era de pânico mesmo em ter que falar alemão e nao entender nada. Lembro que tinha um telão que ficava passando umas informações repetidamente que eu lia e relia, jogava no tradutor, e nada fazia sentido.

O que me acalmou um pouco foi ver tantos estrangeiros na fila. Pensei, “se eles têm direito, eu também tenho.”

Via os recepcionistas encaminhando esse pessoal para uma sala de aconselhamento individual e senti que em breve estaríamos no nosso apartamento com as crianças.

Quando chegou a nossa vez eu me expliquei e o atendente se transformou. Ainda não sei se ele estava com calor ou indigestão então disse, “mas é cada uma que me aparece!” e logo continuou, “só daqui a 2 anos você terá direito a um auxílio”. Ele me entregou um folheto com as mesmas informações que estavam no telão e chamou os próximos clientes.

Acho que fiquei um pouco catatônica mas fui conduzida até a calçada pelo meu marido que só repetia “a gente vai dar um jeito”.

Durante o nosso planejamento para a mudança descobrimos que para alugar um apartamento só seria necessário o primeiro aluguel e mais 3 alugueis de caução. Quem não tem cão, caça com gato! Começamos a pesquisar noite e dia e enviar email para todos os anúncios de apartamentos de 2 quartos para recebermos as meninas o quanto antes. Já conseguia nos imaginar brigando pelo banheiro de manhã e pisando em brinquedos espalhados pela casa.

Recebi resposta de todos os anúncios pedindo os últimos 3 contracheques ou um fiador.

Só um detalhe faltou: eu nao tinha nada disso! Minha mãe tem dois primos distantes em Viena que eu nunca conheci. Como conseguir um fiador? E se eu não conseguisse o seguro desemprego logo?

Foi então que eu comecei a apelar para a estratégia mais conhecida mundialmente, o choro de desespero. Eu chorava ao acordar e ao dormir. Nossas duas semanas de hospedagem (e lua de mel) estavam acabando e nós estávamos em modo economia total, não poderíamos gastar mais com airbnb ou hotel para não comprometer o dinheiro reservado para o aluguel de um apartamento.

Meu marido tem uma mania estranha de me consolar dizendo “Deus só quer o melhor pra gente”. Ele não me deixava chorar em paz! Eu não podia nem me imaginar debaixo da ponte fazendo amizades com os moradores de rua para descobrir onde seria servida a sopa do dia que ele cortava o meu barato! Sim, por que seja na riqueza ou na pobreza, eu tenho que inventar soluções para os possíveis problemas.

Passamos a rezar juntos e tudo o que eu pedia pra Deus era que arrumasse alguém experiente na cidade que pegasse na minha mão e mostrasse o caminho.

Eu já nem queria sair do flat, acho que era procurando uma forma de aproveitar a máquina de lavar enquanto a tinha.

Douglas já devia estar sufocado de tanta negatividade quando disse que a gente deveria sair para respirar ar fresco e pensar em soluções. Passar o dia trancados não iria resolver a questão.

Concordei e com aquele calor do verão eu só queria um chope e uma vista. Fomos para Copa Kagrana, uma praia artificial que o governo criou na beira do rio (para imitar Copacabana mesmo hihihi). Ao pagar pelo chope eu deixei uma moeda de 1 Real cair no balcão, pedi desculpas em alemão e o garçom me perguntou em português se eu era brasileira.

Ele estava com outro amigo brasileiro e nos abasteceram de ideias de onde morar provisoriamente e onde conseguir emprego.

A gente deveria procurar por WG (república estudantil) em grupos no facebook.

Me deparei com vários que não aceitavam casais e quase todos cobravam o mesmo preço de uma kit mobiliada por um quarto, a vantagem, pediam caução mas não documentação.

Com o coração reabastecido começamos a procurar e recebemos vários “nãos”. O que eu fiz? Chorei mais, claro. Mas rezei mais também até que acordei cedo um dia e vi um anúncio diferente que dizia: “Promoção para o mês de setembro: metade do preço e sem caução”. Descobrimos que o dono do WG ia viajar e precisava de gente morando lá para receber os outros novos moradores 2 semanas depois.

Ficamos com o apartamento totalmente mobiliado, com máquina de lavar, cozinha completa, wifi, TV a cabo numa localização incrível por 1 semana sozinhos. Nas semanas seguintes conhecemos os novos moradores, que eram super legais, e como a agência do trabalhador me negou todo e qualquer auxílio novamente eu consegui um emprego por conta própria de garçonete para eventos.

Tudo certo e fluindo até o mês de setembro ameaçar acabar. Outra pessoa se mudaria para o nosso quarto e apesar de estar trabalhando, a gente ainda não tinha o fiador nem os 3 contracheques. Vocês já sabem o que eu fiz, né?

E lá veio o meu marido novamente com aquela história de que Deus só tinha o melhor pra gente. Será que ele não estava entendendo que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar?

Numa manhã estava ele a pesquisar por WGs pelo celular e eu pelo computador quando eu tive uma inspiração, house sitting (cuidador de casa). Funciona assim, quando uma pessoa vai viajar ela deixa outra cuidando da casa, das plantas e dos bichinhos de estimação, se tiver.

Naquele momento a gente decidiu que iria para qualquer cidade, contanto que tivéssemos moradia. Achei vários sites com apartamentos e casas sensacionais, pelo mundo inteiro, e somente um tinha casa na Áustria, e ela ficava em Viena.

Tentei contactar os proprietários mas isso somente com cadastro. Fiz o cadastro e tentei novamente mas eu só poderia enviar mensagens se pagasse a anuidade de U$ 50,00.

Achamos pesado, sem garantias e tivemos medo do site ser uma ilusão, então decidimos tocar a vida e continuar procurando um WG.

Duas noites depois eu tive um sonho, nele eu falava que os donos da casa estavam nos procurando e que a gente deveria escrever uma mensagem com caixa alta no nosso perfil para que eles pudessem nos ver e nos achar. Acordei cedo, peguei o celular para ver a hora e vi que tinha um email. Era uma mensagem automática do site me informando que os proprietários da casa haviam mudado o anúncio. Eles diziam que estava perto da viagem, que os house sitters combinados de ficar tiveram uma emergência e que portanto eles ainda tinham esperança de achar alguém para cuidar da casa.

Foi a nossa deixa. Pagamos a anuidade, afinal poderíamos nos hospedar em qualquer lugar do mundo, e enviamos uma mensagem. Eles responderam quase que imediatamente. Depois de trocarmos informações, documentos, contratos, novas cláusulas e intenções o casal de aposentados marcaram uma conversa por skype e confirmaram que poderíamos ficar na casa. Eles estavam com as passagens para o dia 16 de outubro mas a gente poderia levar alguma bagagem e conhecê-los antes disso.

Mas e os outros 15 dias de outubro? A procura por WGs continuava mas ninguém queria receber um casal e ainda mais por apenas 15 dias. Nesse período eu já estava andando como zumbi, garçons aqui só tem obrigações, nada de direitos. Eram 12 a 14 horas em pé, fazendo todo o tipo de serviço e apenas 15 minutos de pausa para o xixi e um lanchinho, muitas vezes em pé mesmo, saia de casa às 3 ou 5 da manhã algumas vezes. Ouvi todos os tipos de dialetos e muitas vezes me senti agraciada de não ter o domínio total do alemão e por muitas vezes não entender o que os chefes diziam aos berros. Ignorância é sim uma benção.

Amorzão teve que se virar sozinho nessa missão quase impossível. Ele, sem falar o idioma, fuçava todos os sites com seu tradutor automático no celular e eu não sei se foi na deep web mas ele achou o anúncio mais escondido da internet. Enviei um email pedindo maiores informações e a senhora logo me ligou falando esloveno. Na hora eu não entendi nada e por alguns segundos fiquei estática achando que poderia ser mais um dialeto. Acho que foi nesse dia que descobri o jeito para se fazer compreender, rir. Ela logo começou a falar em inglês e marcamos um dia para conhecer o seu WG.

Chegamos com 1 hora de antecedência, os velhinhos daqui gostam de pontualidade. A gente achava a rua mas nada do número que ela falou. Liguei e ela mandou a gente atravessar a rua, do outro lado outro nome. Depois de muitas ligações descobrimos que estávamos no distrito errado. Sim, o google maps vai te mostrar dois endereços iguais mas em bairros diferentes.

Corremos até o local e a senhora já nos recebeu com desconfiança. Ela só repetia que há 20 anos atrás foi tocar violino para a filarmônica do Rio de Janeiro e foi espancada na praia de Copacabana por causa da sua câmera fotográfica. Que trágico, nós ali precisando de um local para ficar, chegamos com 1 hora de atraso e a bichinha já com medo da gente.

O apartamento era velho, abafado e fedia a mofo. O preço que ela queria era caríssimo em relação aos outros que não nos aceitavam. Acho que ela percebeu a minha cara de tristeza e nos mandou entrar no carro. Pensei que ela ia se vingar dos brasileiros pelo jeito que dirigia.

Esse outro apartamento também era velho e o quarto era na verdade uma sala de estar que ela havia fechado com tablado. Duas camas de solteiro improvisadas com colchões antigos e já bem pesados de tanto ácaro, as cortinas, última moda em 1960 e o guarda roupa era na verdade uma antiga estante de TV. O valor que ela queria era altíssimo e não condizente com o estado do imóvel, mas fazer o quê? Ao assinar o contrato e sair para sacar o valor do aluguel e da caução para entregar em espécie (exigência dela), ela nos informa que travesseiro, toalhas e roupa de cama não estavam inclusos.

Lembro de ter dado um mini ataque de pânico andando pelas ruas e lembrando dos tapetes, quadros de quebra cabeça, mofo no teto e banheiro com cheiro forte de urina. E lá estava ele, andando ao meu lado, claramente desaprovando o meu estado, e repetindo “só o melhor pra gente”…

Ainda tivemos que pagar 2 dias de hospedagem em um hostel entre a primeira república e a segunda. Carregando 4 malas no transporte público da cidade.

Os 15 dias nesse apartamento se passaram lentamente entre banhos rápidos com medo de me encostar na cortina mofada da banheira, falta de coragem de entrar na cozinha que possuía até restos de comida derretida nos armários velhos, geladeira fedorenta e ainda as surpreendidas constantes da senhora e os seus interessados em alugar o quarto quando saíssemos. Na sua primeira visita ela foi entrando no quarto sem bater e quase me pega trocando de roupa, logo em seguida nos repreendeu por termos enrolado o tapete, com intenção de respirar melhor. Ela disse que sem o tapete e de pés descalços nós iremos estragar seu piso novinho, provavelmente da sua idade, de tábua corrida. A gente ficava irritado mas logo passava e tínhamos vontade de ajudar aquela senhora solitária. Isso era a ocupação que ela tinha achado para a sua aposentadoria.

Chegou o dia de conhecer casa do house sitting. Esperamos ansiosamente por esse dia, afinal, qualquer coisa seria lucro depois desse último WG. No anúncio deles só havia a foto de uma cristaleira antiga. O bairro fica no subúrbio de Viena e nós não tínhamos ideia da distância nem de como era a casa quando concordamos. Estávamos aliviados e agradecidos por que teríamos uma cama e um teto.

No dia da visita cada um empurrou uma mala pelo caminho. Pegamos o tram, o metrô, um ônibus e caminhamos 15 minutos com as malas até acertar o local e já na frente da casa tivemos que confirmar o endereço várias vezes por não acreditar nos nossos olhos.

Quando fomos recebidos pelo casal de proprietários a gente se olhou sem palavras e com os olhos concordamos: “Deus só quer o melhor para a gente”.

A casa possui 4 quartos, piso de madeira laminado, 2 banheiros, um com ducha o outro com banheira, cozinha reformada e totalmente equipada com máquina de café expresso, geladeira retrô e colorida, máquina de lavar louça, de lavar roupa e máquina de secar, wifi, televisão tela plana com chromecast, TV a cabo, telefone, bicicleta, lareira e aquecimento em todos os cômodos. Todas as portas estão abertas e nós pudemos escolher em qual quarto dormir (inclusive no quarto deles). A despensa e geladeira estavam cheias quando eles viajaram e a recomendação era de consumir tudo o que quiséssemos e só repor o que chegasse ao fim.

Nos mudamos na noite anterior a viagem deles e fomos recebidos com comida indiana e as chaves do carro com tanque cheio, caso quiséssemos usar.

Eu nao sei quantas vezes eu agradeci até que a dona sorriu e disse: “é um acordo que beneficia ambas as partes, também estamos felizes que vocês ficarão na casa”.

Tudo o que precisamos fazer é cortar a grama uma vez por semana e pagar o que consumirmos de água, luz e gás.

Ah! Esqueci de contar, nosso contrato se iniciou em outubro de 2018 e vai até março de 2019.

Você acredita em providência divina ?

Quase ficamos sem teto

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Para morar de graça pelo mundo em troca de cuidar da casa e às vezes bichinhos:

Coloca o pé no mundo e more de graça!

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7 thoughts on “Quase sem teto em Viena :/

  1. Que história sensacional, Milena!!! E que jeito gostoso de contá-la!!! É a verdadeira jornada do herói!!! Parabéns pela casa, pela nova fase, pelo marido cheio de fé no Deus que tem o melhor para vocês… Que as crianças cheguem logo! E que vocês sejam muito felizes… ❤

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  2. Estou me deliciando com seu blog, que apesar de inúmeros desafios, Deus tem se mostrado tão presente.
    Tenha Fé, muitas vezes não entendemos os caminhos da vida, mas Deus tem um propósito maior na vida de vocês.
    Tenho certeza que esse blog será o início de muitas maravilhas.
    Deus vai honrar.
    Na verdade, ele já está honrando.

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  3. Coragem: marca de uma Steinmüller de sangue indígena, linda de viver…..tia amou o relato, as emoções transpõem a tela, entra nas veias, saltam nos olhos emocionados, graças a Deus, com final feliz. Vai juntando que vira livro fantástico. Beijo grande da tia que ama e lhe admira.

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  4. Milena, minha filha, minha linda. Acabei de viver toda sua história, chorei,ri, me desesperei mas conheço sua garra. Sei que vais relaizar todos seus sonhos e metas e logo logo suas filhas lindas estarão ai. “Deus só que o melhor pra vocês ” Te amooooo

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