O início

“Menina, você é louca!”
Passei meus últimos meses no Brasil ouvindo isso.
Meu marido tinha um trabalho estável como coordenador de logística e eu já havia trabalhado como professora de inglês em várias escolas e estava tocando o meu próprio projeto de vivência em inglês e colônia de férias com uma veia mais artística. Muitas vezes fiz trabalhos como free lancer na área de educação e isso geralmente envolvia viajar pelo Brasil.
Nós moravamos em um bairro de classe média, em condomínio  fechado, com piscina, brinquedoteca, churrasqueira, academia, salão de festas, etc. Na garagem coberta, um carro quitado. Nos finais de semana nos sentiamos completos; minhas 2 filhas e os 2 filhos do meu marido enchiam a casa de alegria e amor.
Um dia decidi que era hora de deixar tudo isso e partir para Áustria.
Agora pergunto a você, caro leitor, também me acha louca?
Não te culpo, você só tem essa visão, você não convivia conosco.
A verdade é que por mais que a gente trabalhasse, estudasse e se especializasse, sempre ficava uma (duas, três…) conta(s) por pagar. Parece que estavamos correndo contra os preços  do itens básicos do mercado. Quando conseguíamos ganhar mais um pouco o preço do arroz aumentava, o reajuste da escola das crianças era acima do permitido, havia mais uma taxa extra no condomínio e apesar do meu carro ter mais de 4 anos e eu nunca ter usado o seguro, em 2017 eu paguei mais caro do que no ano que retirei o carro da concessionária. Plano de saúde? Quando decidi empreender ficou impossível de achar um plano que me aceitasse assim como pagar por um.
Mas ate aí tudo bem, a gente se acostuma, se ajusta, corta daqui, corta dali e vai dando um jeito. Dinheiro nunca esteve em primeiro lugar na minha vida.
Quando criança eu morei nos Estados Unidos e na Alemanha. Foi bastante desafiador me adaptar  à nova cultura, me virar sem saber a língua e fazer amizades. Mas uma coisa praticamente me moldou para a vida, a liberdade.
Nos Estados Unidos eu podia andar de transporte publico sozinha aos 7 anos de idade. Na Alemanha me foi acrescentada a bicicleta e todos os parques e bosques que eu me alegrava de ir desacompanhada.
Um dia percebi que minhas filhas tinham como meta de vida ter a boneca tal, andar de limosine, ser como a cantora tal e ter o corpo tal quando crescessem.
Mariah tem 10 anos e Angelina, 08.
Você, caro leitor, acha normal isso?
Quero que elas caiam de bicicleta, subam em arvores, peguem caracóis pelo meio do caminho, joguem pedrinhas nos lagos, saiam sozinhas sem serem assediadas ou assaltadas, aprendam a usar o transporte público e nem queiram ter carro.
Que elas tenham uma relação com o dinheiro que vá alem dos modismos e tendências, que elas aprendam o que tem que está de fato em primeiro lugar.

Mesmo que para alcançar isto eu tenha que ficar longe delas por um tempo…

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2 thoughts on “O início

  1. Mi, lindo depoimento, to achando q sou tão louca quanto vc pq penso da mesma forma. Só não tive coragem de sair do Brasil ainda, acho que faltou planejamento. Boa sorte! Quem sabe um dia não vou aí te visitar. Um beijo grande nas duas gatinhas!!😘

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